Por: Auris Sousa

Uma vez cipeiro, sempre cipeiro. Esse é o lema de Jaime Medeiros dos Santos. “Você não para de atuar. Quem realmente se preocupa com a Cipa não para de atuar, fica sempre focado na questão da saúde e segurança”, avalia.

Em seu segundo mandato como vice da Cipa (Comissão Interna de Prevenção de Acidente) da Meritor, em Osasco, Santos conta que o interesse pela função veio depois de presenciar vários acidentes de trabalho. Numa outra empresa que trabalhou viu um colega quase perder o dedo. “Eu que tirei o dedo dele da máquina. Cansei de tirar cavaco do olho de outros companheiros. Eu mesmo quase perdi a ponta do dedo, por falta de segurança, por falta de planejamento”, relembra.

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Para Jaime, segurança é um princípio

Centrado e crítico, assume que: “São ‘ns’ fatores que você acaba vendo e vê que ninguém se preocupa com isso. Então, você acaba tomando frente das coisas”. Santos é assim, chama a responsabilidade para si, porque sabe que ser cipeiro é muito mais que um título.

Para ele, dedicação não pode faltar, e ela é dosada com cobranças. “Ser cipeiro também é ser chato. Isto porque quando você cobra, você se torna chato. Mas a cobrança tem que ter, se não as coisas não acontecem”, defende.

E todos são cobrados, indiferente do cargo. “Ser cipeiro é ver o que o conjunto dos trabalhadores precisa, e não o quanto a empresa vai gastar. Se é para falar de segurança, temos que falar de coisas boas.” Mas para isso não pode desanimar e tem que driblar obstáculos, um deles é a burocracia.

“É difícil, tem muita burocracia. Você tem o presidente [da Cipa] que é da empresa, tem uma diretoria que joga a favor da empresa, tem o técnico de segurança que diz que vai comprar se for barato e bom. São algumas barreiras que temos que procurar caminhos, ir para lá e para cá, falar com gerente e cobrar”, explica.

É uma maratona necessária, a qual o resultado reflete em toda a fábrica e que todos têm que ganhar. O reconhecimento vem com a redução de acidentes e doenças. “A maior vitória é conseguir solucionar os problemas que temos nas mãos. Deixar o seu colega de trabalho bem. Conseguir melhorar o serviço de outro companheiro de trabalho me deixa bem. Isso é gratificante”, ressalta.

Por isso a estabilidade
Experiente na função de cipeiro, Santos responsabiliza a pressão por mais produção para o aumento de acidentes de trabalho. “A pressão do patrão encima da produção gera uma certa distração, porque a pressão é grande em todos os sentidos, por mais que você tenha um respaldo de segurança, bem organizada, igual a Meritor por exemplo, a gente ainda acaba tendo acidente, talvez por pressão”, observa.

Por isso que para ele dedicação deve vir em primeiro lugar. “O cipeiro tem que colocar na cabeça que quando ele entra para Cipa tem que ser bastante dedicado naquilo que faz, mesmo que seja prejudicado lá na frente”, defende. “Querendo ou não, a gente fica visado, fica marcado, por ser chato. Isso é uma dificuldade. Por isso a estabilidade, por que se não tivesse, na segunda cobrança o cipeiro seria mandado embora. Alguns não gostam de serem cobrados, alguns não gostam de serem chamados atenção.”, completa.

Experiente na função, agitado, comunicativo. Santos é assim, assume em alto e bom som para quem quiser ouvir: “Sou chato”. Mas ser chato, é ser inconveniente, e isso esse e os demais cipeiros que têm nas veias o dom da cobrança não são. Prova disso é que a atuação deles se faz necessária e colabora para reduzir o número de acidentes de trabalho. “Às vezes nem os técnicos de segurança me aguentam, porque eu sou chato. Sou convicto disso. Mas eu tenho que ser, sou obrigado a ser, se não, eu não me faço ouvir”, justifica e sem perceber mostra que não é chato, e sim conveniente.