Por: Cristiane Alves

Cabeca

Muitas vezes os metalúrgicos trabalham nas alturas, com máquinas e equipamentos perigosos, próximos à altas temperaturas e toneladas de metais. E eles não estão livres de acidentes, pelo contrário, estão cada vez mais expostos. É o que mostrou o estudo realizado pelo Sindicato, a qual analisou os acidentes que ocorreram nas fábricas de Osasco e região, nos últimos quatro anos.  ProgramaMetalurgico

O estudo aponta que entre março de 2010 e junho de 2014, aconteceram 111 acidentes de trabalho nas metalúrgicas da região, e 94 pedidos de fiscalização. Deste total, 33% aconteceram nas empresas que fazem parte do Programa Metalúrgico de Prevenção de Acidente. Deste montante, o Sindicato analisou 40 acidentes, que foram fiscalizados pela GRTE (Gerência Regional do Trabalho e Emprego) de Osasco cujos resultados chegaram à entidade. Deste total, 20% resultou em morte, 28% em amputação e 52% em fraturas, esmagamento, queimaduras, entre outros.Operario

Os acidentes mais comuns que levam à morte nas metalúrgicas da região são: queda, impacto com objeto e descarga elétrica. No dia 16 de novembro de 2012 um metalúrgico da Multivisão sofreu um acidente. De acordo com informações repassadas ao Sindicato, Almir Marques Garcia Theodoro, de 45 anos, caiu de uma altura de aproximadamente oito metros e não resistiu aos ferimentos. O companheiro foi registrado como serralheiro, mas no momento do acidente prestava serviços de manutenção do telhado. O que se configura como desvio de função que, conforme o estudo, é motivo dos 10% dos acidentes analisados no período.

Segundo o relatório de fiscalização, o “acidente teve origem na precariedade das condições de segurança em que o trabalho era realizado, tanto em relação aos equipamentos de proteção individuais, quanto em relação aos equipamentos de proteção coletivas; pela ausência de treinamento dos trabalhadores para o trabalho em altura e pela deficiência da gestão da segurança no trabalho do empregador”.

Infelizmente casos como esses são comuns. A falta ou o não uso dos EPIs, assim como a falta de treinamento são apenas alguns dos fatores para as causas dos acidentes na metalurgia.

“Nos últimos quatro anos os casos de acidente subiram e a empresa é responsável por qualquer dano que o trabalhador sofra. Quem sofre com as metas de produção abusivas é o trabalhador, que às vezes paga com a própria vida”, avalia o diretor do Sindicato Gilberto Almazan.

Membros superiores são as partes mais atingidas

Entre as partes do corpo atingidas, segundo a pesquisa, os membros superiores lideram o ranking, com 53% dos acidentes investigados. Foi o que aconteceu com Genilson Alves de Oliveira, da Meritor. Em fevereiro de 2013, o companheiro teve a ponta do dedão – da mão direita – esmagado, no momento em que movimentava uma embalagem de carcaça, a qual pesava 150kg, segundo relatório de fiscalização.

Genilson mostra ponta do dedo reconstruída após acidente de trabalho

Genilson mostra ponta do dedo reconstruída após acidente de trabalho

“Se a embalagem tivesse vindo normal, com oito peças, ela ia sair normal e não ia ficar presa. Mas os colegas colocaram peças a mais da embalagem, em vez de oito veio com dez”, lembra o companheiro.

Oliveira ficou quase 50 dias afastado para se recuperar. “Só ficava pensando no meu dedo, imaginando que não ia voltar a fazer as mesmas coisas que fazia antes do acidente. Mas consegui me recuperar e ainda estou na mesma função”, comemora ele, que que teve o dedão reconstituído.

No relatório de fiscalização os seguintes fatores foram as causas dos acidentes: manuseio do transporte de carga em condições ergonomicamente inadequadas; falta ou inadequação de análise de risco da tarefa; sistema, máquina ou equipamento mal concebido.

Depois dos membros superiores, as partes mais atingidas são: as múltiplas, com 24%, em seguida a cabeça, com 15%, e os membros inferiores e o tronco, ambos com 5%.

Jovens são as principais vítimas de acidentes

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Nas metalúrgicas da região, são os jovens com idades entre os 19 e 35 anos que mais estão expostos ao risco de ocorrência de acidentes no local de trabalho. Essa faixa etária representa 62% das vítimas de acidentes de trabalho. “As empresas devem investir mais em treinamento, qualificação e prevenção. Assim nós [os trabalhadores], principalmente os mais jovens, vamos ficar mais seguros”, avalia um companheiro da Budai, que acompanhou a divulgação da pesquisa.

Mulheres na mira – Apesar das mulheres serem a minoria na categoria, a presença delas como vítima de acidentes é marcante, com 10% dos casos. Erika Patrícia Pereira, da Zoppas, tinha 27 anos, quando, em agosto de 2013, um acidente provocou a amputação de seu dedo indicador esquerdo.

Conforme relatório de fiscalização, diversos fatores contribuíram para o acidente: máquina sem proteção; máquina sem dispositivo de parada de emergência; EPI danificado; falta de treinamento. “As empresas não qualificam seus trabalhadores, para que exercem suas funções com segurança. Isso não pode continuar”, ressaltou a diretora do Sindicato Gleides Sodré.

80 dias depois, fiscalização chega ao local do acidente 

A pesquisa identificou ainda que a fiscalização do Ministério do Trabalho leva 80 dias para fazer a primeira visita na empresa onde aconteceu um acidente grave ou fatal. Ao todo, são 195 dias até que toda a análise de acidente seja concluída.

Depois de tanto tempo, o ambiente em que ocorreu o acidente pode ter sido modificado, prejudicando a análise. “Antigamente, a investigação acontecia em cinco dias e o relatório, [era elaborado] em 30 dias”, lembra o diretor do Sindicato, Carlos Aparício Clemente.

CalendarioMas, além do prazo, mudou a forma do Ministério tratar a questão. “Hoje, o Ministério do Trabalho fiscaliza por programa. Não é mais como antigamente, em que um fiscal olhava tudo”, explicou o gerente Regional do Trabalho de Osasco, Ronaldo Freixeda, citando como exemplo o Programa Metalúrgico.

De acordo com Freixeda, o prazo médio para conclusão de um processo é de 120 dias. “A qualidade da ação fiscal de hoje é muito melhor”, afirmou.

Clemente descorda. “Emburreceram a fiscalização trabalhista com a criação desses programas”, avalia Clemente, que acrescenta: “Vamos enfrentar essas questões, não vamos aceitar esse descaso.

Prejuízos – Essa demora prejudica os trabalhadores e o Estado. Enquanto não tem em mãos o relatório da fiscalização, fica complicado para o trabalhador – ou sua família – buscar seus direitos na Justiça: é preciso que o acidente tenha sido investigado.

E enquanto não tem fiscalização, muitas vezes, as causas do acidente não são corrigidas e, então, outros trabalhadores ficam sob a mesma ameaça.

É importante saber também que as empresas que mais causam acidentes sofrem no bolso o impacto da negligência com a saúde do trabalhador. Existe o SAT (Seguro Acidente de Trabalho): quanto maior o índice de acidentes, maior o seguro pago pela empresa. Então, muitas vezes, esse é um dos motivos de não conferir transparência ao fato.

Após a conclusão do relatório, caso seja confirmada a responsabilidade da empresa, é importante que ele seja encaminhado à Advocacia Geral da União para que esta possa solicitar o ressarcimento aos cofres da Previdência Social dos gastos com auxílios pagos ao trabalhador acidentado.

Mas para essa roda girar, o impulso precisa ser dado pela fiscalização trabalhista.

 35% das atas de Cipas recomendam melhorias

IndustryA pesquisa também deixa clara outra questão: não basta ter Cipa, elas têm de ser atuantes. Isso porque diante de acidentes graves como os analisados, a reação de 15% das Cipas que se reuniram e encaminharam a ata ao Sindicato foi a de não indicar nenhuma recomendação de melhoria e ajuste e, enfim, de prevenção de novos acidentes.

Em 35% dos casos foram feitas recomendações. Porém, 50% das Cipas não encaminharam o documento ao Sindicato, deixando dúvidas sobre medidas preventivas que possam ter sido adotadas.

Outra constatação é que, quando analisam os acidentes, 43% das Cipas responsabilizam o acidentado, 29% afirmam que o funcionário não obteve treinamento ou que precisava de orientações, 21% indicam que estão em busca de novas alternativas para operar o equipamento e apenas 7% alegam que o equipamento é inseguro.