Por: Auris Sousa

As transformações que ocorrem no mundo do trabalho, como a automação e informatização, muitas vezes não estão visíveis para grande parte das pessoas, principalmente para aquelas que não convivem num ambiente fabril. Contudo a ascensão da robótica nas fábricas faz parte da mesma tendência que vem determinando, nos últimos anos, a crescente automatização dos bancos, do comércio e das empresas em geral, causados pela vinda da informática. automacaoDiante de um cenário de transformação como este, a primeira coisa que vem a nossa cabeça é o desemprego. No entanto, este não é o único risco que o trabalhador corre, a saúde da mente, bem como a interação do homem com outros seres humanos também correm grandes riscos. Foi o que alertou o cientista brasileiro Miguel Nicolelis durante o 4º Congresso Internacional de Ciências do Trabalho, Meio Ambiente, Direito e Saúde, realizado em São Paulo em agosto pela Fundacentro. “O grande embate trabalhista do futuro passa por uma automação da vida cotidiana. Os futuros acidentes de trabalho não vão ser só físicos. Talvez o fato de o sujeito passar 8h como coadjuvante de um sistema automatizado que controla a produção cause danos para a mente muito mais relevantes que todos os danos físicos registrados na história do trabalho”, alertou. Nicolelis explicou que, com a automação exagerada, os trabalhadores acabam como coadjuvantes da tecnologia no processo produtivo, o que pode causar danos sérios ao cérebro humano. Além disso, ressaltou que a prática constante com os meios tecnológicos colaboram para o distanciamento entre as pessoas. “Nós estamos condicionando nosso cérebro ao uso de tecnologia ao longo da vida, e como ele é extremamente adaptável, passa a imaginar que o que vale a pena, como os prazeres sociais e financeiros, se comporta também como um sistema digital. O continuo contato digital, por exemplo, leva a alienação social dos indivíduos”, disse.

Nicolelis alerta que automação pode moldar a mente do trabalhador

Nicolelis alerta que automação pode moldar a mente do trabalhador

O cientista deixou bem claro que não é contra a tecnologia, muito pelo contrário. Por isso fez questão de enfatizar a forma correta de se utilizar dela: “a tecnologia moderna pode ajudar o homem desde que ele a controle e não o oposto”. Sonho Dourado – Ao longo de sua palestra, Nicolelis fez referência ao chamado “sonho dourado” do capitalismo, de substituir totalmente a mão de obra pela tecnologia, com a intenção de baratear os custos de produção. “No momento em que o ser humano deixa de ter o papel de controlador, e de direção do uso da tecnologia e passa a ser usado por ela as consequências são nefastas”, enfatizou. No entanto, o cientista defendeu que é “completamente impossível” uma máquina substituir o cérebro humano, logo “a remoção completa do ser humano [do trabalho] é impossível”.  Então, destacou que a opção que sobra é transformar o ser humano numa máquina. Como seria está transformação? “Ao sermos expostos continuamente a lógica digital, o cérebro de cada um de nós passa a imaginar que vale a pena a gente se comportar como um sistema digital”, explicou. Prova disso é que hoje temos dificuldades, por exemplo, de lembrarmos de coisas simples, como endereços, números de telefones. “Isso já é um produto da nossa quase servidão digital”, destacou.