Por: Cristiane Alves

miolo-2016-15Os últimos 30 anos foram de intensificação de alguns males que o metalúrgico conhece bem: LER (Lesões por Esforços Repetitivos)/ Dort (Distúrbio Osteomuscular Relacionado ao Trabalho). A elas se somaram os transtornos mentais, como depressão, síndrome do pânico e outras, todas, ligadas ao trabalho. É o que mostram os dois volumes do livro “De Que Adoecem e Morrem os Trabalhadores na Era dos Monopólios”, organizado pelo médico especializado em Saúde Pública, Herval Pina Ribeiro.

A publicação contou com o apoio do nosso Sindicato em sua elaboração e foi na sede, em Osasco, onde ocorreu o primeiro lançamento em entidade sindical, em março.

Ao mesmo tempo em que a publicação contextualiza as relações de trabalho, ela também detalha os males que afetam os trabalhadores no período de 1980 a 2014. Para muitos, “doenças de digitador”, as LER se tornaram um mal crônico entre trabalhadores de diversas categorias, inclusive a nossa, a partir dos anos 1990. Boletim técnico da Fundacentro, aponta que no país mais de 3 milhões de pessoas convivem com LER/ Dort, o levantamento tem como base a Pesquisa Nacional de Saúde do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas), de 2013.

Na metalurgia um dos responsáveis foi a disseminação da organização da linha de produção em células, que aceleram o ritmo de trabalho e no qual, muitas vezes, um mesmo trabalhador opera várias máquinas. Uma “modernidade” que ganhou ainda mais força a partir dos anos 1990, com o respaldo do governo Fernando Collor de Melo, que, então, difundia o Plano Brasileiro de Qualidade e Produtividade (PBQP), apoiado pelo empresariado como uma forma de internacionalizar a economia nacional. “Então, as doenças contemporâneas são aquelas doenças do setor de serviço. Hoje, onde você encontra a dinâmica do trabalho sedentário também no setor industrial”, explica Herval Pina Ribeiro.

E elas são potencializadas pela intensificação do trabalho proporcionada pelo uso das tecnologias de comunicação, como o celular e Internet. “Hoje, por exemplo, todo mundo está trabalhando com o computador. Evidentemente, isso é um convite para você fazer isso em casa e não ir para o trabalho”, aponta Herval.

O celular também é um vilão, especialmente, nos casos daqueles trabalhadores que têm o aparelho fornecido pela empresa. “Então, a jornada de trabalho deixou de ser fixa, ali no local. A exploração aumentou. Você fica preso àquilo que as pessoas querem que você faça”, lembra.

E toda essa pressão não fica somente no corpo físico, mas também na mente. A estimativa da OMS (Organização Mundial de Saúde é que em 14 anos a depressão será o principal fator de adoecimento no mundo, não raro, esse problema pode levar ao suicídio. Mas, há um grande abismo entre a vinculação dessas doenças com a atividade profissional ou as relações de trabalho nas quais o trabalhador estava inserido antes de desenvolver o problema. “É símbolo de uma obrigatoriedade, de uma verticalidade do poder. Do poder de quem tem dinheiro e paga e compra o seu trabalho”, analisa Herval.

Para o médico, essa é a contradição em que vivemos, em que temos meios de produção são utilizados para potencializar a produtividade, mas não para melhorar a qualidade de vida do trabalhador. Tudo isso porque as relações de trabalho não buscam esse objetivo. “A tecnologia não é ruim, não tem um instrumento de tecnologia que causa doenças. Quem causa as doenças são as relações de classe no trabalho”, arremata.

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