Por: Revista OI

Abel conta luta contra excesso de peso e altura

Abel conta luta contra excesso de peso e altura

Abel da Silva Rosa tornou-se um cipeiro. Esta condição não apareceu da noite para o dia, ela já estava bem ali. Isso porque Abel já era cipeiro antes mesmo de se tornar um. Prova disso é que sempre esteve atento às irregularidades no ambiente de trabalho.

Certa vez, antes de se candidatar à Cipa (Comissão Interna de Prevenção de Acidente), incomodou-se com o excesso de trabalho. Não se conteve e a partir daí sua rotina começou a mudar. “Vou dizer no jargão popular: já cheguei a peitar o meu chefe, a respeito de sobrecarga que estaria colocando sobre eu meus companheiros. A reação foi aquela indesejada: fui para o corte, paguei caro”, detalha.

Já entre os colegas da fábrica a história foi diferente. Em troca da “proteção”, Abel recebeu confiança, respeito e incentivo para se candidatar para eleição da Comissão. Entretanto, ser cipeiro não estava em seus planos, mas foi encorajado e estimulado, conclusão: está em seu segundo mandato como cipeiro na Açotécnica.  “Isso significa que eu tenho que dar a resposta à altura da confiança dos colegas”, avalia.

Joinha_02Aos 52 anos, Abel é um homem sério, e não brinca em serviço, divide a função de operador de vazamento com os deveres de um cipeiro. Diariamente faz uma checagem nos setores, sempre com olhos críticos. Também gosta das coisas certas, e coloca tudo no papel. Fez questão de apresentar à reportagem do OI um balanço de seu mandato. Nele, estão as principais medidas adotadas para prevenir acidentes ou doenças do trabalho, como a instalação de equipamento para eliminar o manuseio de peso e riscos de lesões, e a construção de uma plataforma para limpeza dos cadinhos, com o objetivo de eliminar a postura inadequada e risco de lesões.

O que mais anima Abel é que, ao longo de seu mandato, os números de acidentes têm caído consideravelmente. Segundo ele, aconteceram 7 acidentes no primeiro semestre de 2013. No mesmo período de 2014, a quantidade reduziu para 3, e em 2015 para 2. “Essas são as maiores conquistas”, avalia ele, que explica o procedimento da Comissão, logo após um acidente:

“Convocamos uma reunião extraordinária para discutir o ocorrido e para mobilizar a equipe em busca de alternativas para que um novo acidente não volte a acontecer”. Ao todo a empresa conta com quatro cipeiros. Abel gosta de frisar: “Somos uma equipe, e isso inclui os demais trabalhadores”.

Joinha_01“Cipeiro não é um acusador, mas sim um defensor”

Para o companheiro, “cipeiro é um trabalho que dignifica a pessoa. Ser cipeiro significa ser melhor. Cipeiro não é um acusador, mas sim um defensor. A empresa não tem nada que olhar o cipeiro como um acusador, mas sim como alguém que só vai agregar”, define.

Abel tem razão. Entretanto, nem todos empregadores entendem isso. De acordo com Leonidas Ramos Pandaggis, Gerente da Coordenação de Segurança no Processo de Trabalho da Fundacentro, ficou evidente na reunião Tripartite que, revisou a NR-5 (Norma Regulamentadora), a estabilidade do cipeiro eleito incomoda de sobremaneira os empregadores.

“Como se o cipeiro, no exercício de seu mandato estivesse defendendo algo que o patrão é radicalmente contra. Assim, a estabilidade é tratada como um benefício que o trabalhador ganha ao ser eleito, quando na verdade não é isso. Fosse uma vantagem pessoal poderia ser objeto de barganha, de negociação, que não é possível à luz da legislação vigente”, explica.

CipaLegalIsso é perigoso, e Pandaggis tem propriedade para falar. “Reduzir a CIPA à obtenção da estabilidade, elide-se a razão de ser da Comissão, que é a participação dos trabalhadores na gestão da segurança e saúde no trabalho praticada na empresa”.  O especialista da Fundacentro ainda acrescenta: “Há ainda outro efeito colateral nessa contrariedade explícita do empregador em relação à estabilidade do cipeiro: o fato do empregado, ao habilitar-se à representação dos trabalhadores na Comissão, estar assumindo um papel que o coloca em situação de “opositor” do empregador e seus prepostos”.

Cipapel e a tática para desarticular a prevenção

DOIS-ULTIMOS-corEm situações como estas, o patrão estigmatiza o cipeiro dentro da fábrica, enfraquecendo o sentido de ser da Cipa. Isso quando não cria a Cipapel, ou seja, a Cipa existente só no papel. E no meio disso tudo o principal prejudicado é o trabalhador, e a luta por saúde e segurança.

Durante o 36º Ciclo de Debates, Rogério de Jesus Santos, da Força Sindical, apontou alguns casos de Cipapel. Em Caxias do Sul, por exemplo, em 2014, das 400 empresas que tiveram documentação analisada pelo Ministério do Trabalho e pelo Ministério Público do Trabalho, apenas nove tinham Cipa. Segundo Santos, o procurador do Ministério Público do Trabalho, Ricardo Garcia, acredita que é justamente a falta de interesse do empregador a causa da inoperância das comissões.

Outra tática utilizada para enfraquecer a Comissão é desarticula-la. Exemplo disso foi a conduta da Arim, em Santana de Parnaíba, que demitiu em julho cinco cipeiros de uma só vez. A irregularidade foi constatada pelo diretor Orlando Marques, e graças à intervenção do Sindicato a empresa reintegrou em agosto todos os companheiros.

Por isso é necessário fortalecer a Cipa, e para isso é preciso quebrar os mitos que rondam a comissão. A informação é a principal ferramenta. Assim como para conhecer um produto precisamos ler a bula, para conhecer a CIPA precisamos observar a NR-5, a Cartilha “Caminhos para o Conhecimento das Cipas”, criada pelo Sindicato, e outras disposições legais relacionadas. Somente assim podemos saber realmente o que é a CIPA, fazer algum julgamento sobre ela, e não ser enrolado pelo patrão.

Mitos que rondam as Cipas

sem-tampa-corAchar que o trabalhador não tem condições de administrar seus interesses talvez seja um dos maiores mitos, e uma das maiores tolices de uma má administração. Por isso que os trabalhadores devem ficar atentos para não andar na contração da organização e travar uma luta em que todos são os ganhadores, porque como o companheiro Abel disse: o cipeiro, assim como os demais trabalhadores, “é alguém que só vai agregar”.

Para a batalha não ser em vão, é preciso buscar o protagonismo da Cipa, para isso é fundamental que ela tenha apoio e que seja estimulada. Um grande estimulo é a estabilidade, que é uma aliada de todos os trabalhadores, já que colabora para que o cipeiro tenha condições reais para apontar e conquistar mudanças e melhorias nas condições de trabalho. Além disso, colabora para que as empresas não tentem controlar este espaço de organização e defesa dos trabalhadores, para fazer com que atuem a seu favor. Por isso, que muitos patrões se opõem a Cipa, ao cipeiro, e a estabilidade.

vazamento-cor-corrigidoEssa oposição faz crescer boatos e mitos, um deles é que o cipeiro não quer saber de trabalhar e que “enrola pela fábrica”. O que todos precisam saber é que circular pelos setores é uma das atribuições que são legítimas aos cipeiros na busca de melhores condições de trabalho. Logo, não se trata de um simples passeio, ou desculpa para driblar as tarefas do cargo registrado em carteira, mas sim uma obrigação.

“Em relação ao estigma do cipeiro não trabalhar e ter liberdade para eventualmente “passear” pelas instalações da empresa, busca-se criar um estereótipo que iniba o interesse dos trabalhadores em participar da CIPA. Esse rótulo de “folgado” do membro de CIPA não implica atrativo algum para a Comissão, muito pelo contrário. À imagem do trabalhador que se expõe politicamente, para defender a melhoria das condições de trabalho para todos, se contrapõe aquela do trabalhador oportunista que busca na CIPA alguma vantagem pessoal”, explica Pandaggis da Fundacentro.

Desenho e Quadro